Depoimentos de Moradores sobre a conversão em hotel do 64 da Alameda Afonso Henriques

Habitação

Alameda Dom Afonso Henriques, 64 - Está prevista para aqui a expulsão de moradores e a conversão (com demolição total do interior) num novo hotel (11)

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Primeiro depoimento:
“Como representante neste processo e filho da inquilina do 3 Esq. do prédio sito na Alameda Dom Afonso Henriques 64 em Lisboa, alvo de aprovação pela CML, em 4 de Julho deste ano, por despacho do Vereador, de pedido de informação prévia (Proc. 117/EDI/2017) relativo à demolição do edifício acima descrito, com manutenção da fachada principal e do hall de entrada ocorre-me escrever umas breves linhas para que para além das pedras, se conheçam as pessoas que nele habitam, como é o caso da Sr.ª minha mãe cuja historia passa por procurar uma vida com melhores oportunidades em África para onde parte sozinha agarrada apenas ao seu recentemente obtido curso de enfermagem, ter de regressar passados mais de vinte anos sem nada, a não ser a família que lá constituiu e chegar a Lisboa com dois filhos ainda menores. Segue-se-lhe o trauma de tudo deixar, e o pouco que trouxe resumir-se a um caixote depositado debaixo daquela ponte onde tantos outros com a mesma sorte procuravam naquele dia os seus parcos haveres, (tinha dez anos e lembro-me desse cenário dantesco junto ao edifício do IARNE), o montar nova casa para dar inicio de novo a uma vida digna, o enviuvar e, eis que aos 92 anos, quando pela natureza da vida mais se não pede do que a deixar estar no canto das suas memórias, se arrisca a perder este seu esperado último refugio, o poder vir a ficar longe dos locais que ainda com uma relativa autonomia continua a frequentar tais como tomar o seu café no local onde continuam as amigas a encontrar-se, o seu supermercado onde todos os dias vai comprar qualquer coisa nem que seja para sair de casa, o seu cabeleireiro. Perder tudo isto nesta idade é desumano.”
Jorge Silva

Segundo depoimento:
“Nasci e cresci no nº 64 da Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa onde actualmente resido e de onde corro o risco de ter de sair em virtude de existir um projeto de demolição do prédio para a construção de um hotel. Tenho 67 anos e voltei a residir aqui há cerca de 20 para me ocupar do meu pai idoso e doente. Entretanto vivi em França alguns anos e regressei depois a Lisboa tendo aqui prosseguido a minha carreira de professora universitária no ISCTE-IUL. Quando o meu pai, arrendatário do andar , faleceu herdei o arrendamento pelo facto de, por motivos de uma deficiência contraída ao nascer, me ter sido atribuído pela Direção-Geral de Saúde um grau de incapacidade de 80%. Este prédio não conhece obras mínimas de manutenção desde há mais de 30 anos tanto enquanto foi propriedade de um hospital público, o Hospital Rovisco Pais , na Tocha, Coimbra, como desde que foi adquirido há poucos anos pelo atual proprietário que o comprou em hasta pública. Os inquilinos têm, por isso, sido duplamente penalizados. Pela ausência de manutenção por parte dos senhorios que os inquilinos se têm visto obrigados a tentar substituir e , agora, pela ameaça de demolição do prédio. Não me parece justo”.”
Fátima Sá e Melo Ferreira

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