Vila Áspera (breve história)

Agora que se vivem os derradeiros dias da última Vila do Areeiro é o momento que reunir alguma informação sobre a Vila Áspera que se vê hoje entre a Rua Margarida de Abreu e a Avenida Gago Coutinho. Em primeiro lugar, falamos de uma das duas últimas Vilas Operárias que alguma vez existiram no Areeiro (na Graça e em Arroios eram muito mais comuns). Estas vilas nasceram nos terrenos das quintas que começaram a surgir nesta zona na época do reinado de Dom João I e que faziam parte de um “anel verde” que rodeava e abastecia os mercados de Lisboa e que eram especialmente numerosas nas zonas de melhores solos e com amplos fornecimentos de água, conforme sucedia aqui nesta zona do Areeiro.

Pouco, quase nada, se sabe da Vila das Varandas excepto que dava para a Barão de Sabrosa, sobre a Vila Aspera, contudo, já se sabe um pouco mais da Vila Aspera: Data do século XVIII o primeiro grande período de povoamento da zona da Vila Áspera. São desta épocas a Quinta do Pina (que daria nome ao “Alto do Pina”), a Quinta do Mendonça, a Quinta do Monte Coxo (que existia em 1989 havendo notícia de um incêndio na RTP e que era fronteira à Rua Alberto Pimentel e em cujos terrenos seria construído o Bairro Gebalis junto aos prédios da Cooperativa Portugal Novo), a Quinta dos Passarinhos que tinha casario na zona do Alto de São João e onde existia o “Retiro Manuel dos Passarinhos”, a Quinta da Holandesa, que foi fotografada por Arnaldo Madureira, já em ruínas e cuja população – de maioria hindu – foi realojada em finais dos anos de 1990 no Bairro do Armador, em Marvila e, alguma, no Bairro da Gebalis junto ao Portugal Novo, assim como as Quintas da Noiva, do Pilão e do Pombeiro ou ou de N. Sra. da Conceição em cuja casa senhorial norte, recuperada funciona hoje a Casa de Acolhimento Para Crianças Refugiadas e onde em 2010 ainda se viam restos de uma ermida (perto desta ermida há registos de duas outras a dos Aciprestes (à Fonte do Louro) e a das Ameias cujas ruínas ainda resistem e que serão, também, da mesma época, ou seja de começos do século XVIII. Esta quinta teria pertencido a um lavrador de nome Joaquim Augusto Pombeiro mantendo a tradição de designar estas quintas com o nome do seu proprietário origina e que a terá construído no século XVIII. As suas ruínas, designadamente com a zona dos jogos de água ainda hoje podem ser vistas no parque Urbano do Vale da Montanha. Em praticamente todas estas quintas durante as décadas de 1980 e 1990 surgiram vários bairros de barracas que tomaram os seus nomes. A Quinta dos Pacatos, onde está hoje a Rua Abade Faria seria usada para construir as habitações sociais do Bairro Carmona. Na Azinhaga Fonte do Louro residem ainda cinco famílias em condição de relativo abandono de limpeza e cuidados urbanos por parte da CML e da Junta de Freguesia. No seguimento destas quintas encontramos ainda as ruínas da Quinta das Olaias ou do Casal Vistoso (onde nasceu a urbanização de mesmo nome) e que no século XVII pertencia aos Abreus e Castros e por onde terá, alegamente passado o Rei Dom Fernando II e a condessa de Edla a sua segunda esposa.

Em finais de 1990 e começos de 2000 começam os realojamentos das barracas destas quintas agrupadas sobre a designação de “Vale do Areeiro” sendo os moradores de maioria indiana (especialmente de Diu ou, melhor, de Fudam no Oeste deste território da Índia Portuguesa) que chegaram a Portugal, sobretudo, em finais da década de 1970. Em 1991 viviam aqui perto de 1400 pessoas, quase todas em condições muito precárias.

Não longe destas quintas e muito perto da antiga Estrada de Sacavém (cujos últimos troços, hoje abandonados e cobertos de vegetação, ainda se observam junto à Azinhaga da Fonte do Louro) nasceu a Vila Aspera nos terrenos de uma desconhecida Quinta Aspera situada muito perto da Rua Alves Torgo (troço junto à Avenida Gago Coutinho no Areeiro). Esta quinta, seguindo a regra das demais, seria propriedade de uma família Aspera, cujo nome está associado à pequena nobreza italiana de começos do século XVII da zona de Bergamo e que surge mais tarde perto de Fuente Arcada, perto de Caceres (Estremadura) e perto da nossa Serra da Malcata. Hoje a Vila Aspera está dividida em duas metades, separadas por uma rua a calçada que pertence a dois irmãos espanhóis, descendentes do antigo proprietário.

Antes de 1959 a zona era abrangida pela extinta freguesia de Beato António a partir do nome do Convento de São Bento de Xabregas ou “Convento do Beato António”. Nesse ano a zona foi integrada na freguesia do Alto do Pino e, em 2012 na nova freguesia agregada do Areeiro. Em 1978 a Câmara Municipal de Lisboa realizava um levantamento aerotofográfico da zona da Vila constando numa planta do Instituto Geográfico e Cadastral de 1951. Em 2005 faleceu perto da Quinta Aspera um cidadão cabo-verdiano, na zona da Quinta das Holandesas tendo então ficado várias pessoas sem alojamento. A barraca que ardeu estaria “paredes meias” com a Vila Aspera cujos moradores se queixavam do “ruído” e perturbação constante nessa zona. Em 2008 veio para aqui a primeira família moldava que, nos anos seguinte, foi seguida por outras. Em 2013 quase todas as casas eram habitadas ou por reformadas portuguesas, que viviam sozinhas depois do falecimento dos seus maridos ou por famílias moldavas. A degradação da Vila era já notória em 2016 tendo a Câmara Municipal declarado alguns edifícios como “devolutos” e determinado a necessidade de os proprietários realizarem obras de conservação.

A última habitante portuguesa desta última vila do Areeiro deixou a sua casa em 2017 para um lar de terceira idade e a outra (Rosa Ramos) havia falecido pouco antes. Em 2018 a maioria das casas da Vila já estavam vazias

Actualmente resta apenas um contrato de arrendamento na Vila Aspera e, mesmo este, está em processo de despejo (contestado pelo inquilino). As uvas que hoje podemos ver entre as casas são de castas moldavas e foram plantadas por emigrantes desse país do Leste europeu. A maioria das famílias moldavas trabalhava no sector da construção civil (os homens) e das limpezas domésticas (as mulheres). Hoje, apenas passam aqui muito pontualmente, sobretudo para cuidar da vinha e apenas a igreja evangélica com origem em Minas Gerais do “Ministério Filhos da Promessa” funciona aqui no mesmo edifício do antigo restaurante Molha Pão (2009) precisamente onde começa a localização “oficial” da Vila Aspera, o 346 da Rua Alves Torgo (antiga Estrada de Sacavém) que é a localização correcta da vila e não a “Rua Humberto da Cruz” do Google Maps.

É para aqui, e para a zona fronteira da Alves Torgo que se diz que será o investimento do “The Edge Group” noticiado em Agosto de 2018 que refere “dois prédios na zona de Alvalade e Areeiro onde vão nascer apartamentos para habitação” num investimento no Areeiro que rondará os 35 milhões de euros em 300 casas na forma de “pequenos apartamentos destinados ao arrendamento de média duração, de um ou dois anos” e com serviços complementares como limpeza (?) ou ginásio. As obras devem começar em 2019, assim que estiver concluído o licenciamento (informação de agosto de 2018).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *